DA INOVAÇÃO À CAPTURA: A PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO, O AVANÇO DAS EDTECHS E OS NOVOS GRILHÕES AO TRABALHO DOCENTE
Palavras-chave:
Plataformização da educação, Edtech, Trabalho docenteResumo
O artigo analisa criticamente a inserção das plataformas digitais na educação pública brasileira, situando esse processo no âmbito das transformações do capitalismo contemporâneo e do avanço das EdTechs sobre as políticas educacionais e seus impactos no trabalho docente. Com ênfase na rede estadual de educação do Rio de Janeiro, o estudo adota o materialismo histórico-dialético como método e articula revisão bibliográfica com investigação empírica realizada por meio de questionários semiestruturados aplicados a professores da referida rede de ensino, no intuito de compreender como a plataformização reconfigura as condições de trabalho na escola pública. Os resultados indicam que, embora revestidas pelo fetiche da inovação tecnológica, as plataformas operam conforme a lógica do capitalismo de vigilância, pois convertem dados em ativo econômico e ampliam mecanismos de controle, monitoramento e intensificação da atividade docente. As respostas dos professores evidenciam insatisfação com as formações oferecidas, aumento da carga burocrática, uso compulsório das ferramentas digitais e percepção de que a plataformização reforça a privatização dos meios educacionais. Tais achados tencionam o discurso oficial de modernização e demonstram que a incorporação das EdTechs tem aprofundado processos de precarização e erosão da autonomia pedagógica. Conclui-se que a plataformização deve ser compreendida como estratégia de empresariamento da educação pública, o que demanda por respostas coletivas capazes de enfrentar o avanço da mercantilização e a reconfiguração do trabalho docente no interior da escola pública.
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