A ESCOLA MERCANTILIZADA: PLATAFORMIZAÇÃO E A PEDAGOGIA DO CAPITAL
Palavras-chave:
Educação, Neoliberalismo, Plataformização, Precarização do TrabalhoResumo
O artigo tem como objetivo analisar criticamente os nexos entre financeirização, plataformização e precarização do trabalho, tomando a educação como campo estratégico em que se expressam as contradições do capitalismo contemporâneo. A discussão insere-se no marco dos trinta anos da Reforma do Aparelho do Estado no Brasil, compreendida como divisor histórico que reconfigurou o papel estatal, deslocando-o da garantia de direitos sociais para a indução de mercados educacionais, com forte presença de conglomerados privados e fundos de investimento. O percurso metodológico adotado combina revisão bibliográfica, análise documental e experiências acumuladas em congressos, seminários, grupos de pesquisa, orientações de teses e imersões em escolas e universidades, privilegiando uma abordagem hermenêutico-crítica. Os resultados evidenciam que a educação tem sido capturada por lógicas mercantis e digitais, convertendo escolas em clientes de pacotes empresariais, submetendo professores a intensificação do trabalho mediado por algoritmos e transformando estudantes em perfis de consumo e dados comercializáveis. A plataformização aparece como expressão da nova racionalidade neoliberal, na qual a promessa de modernização convive com a compressão da autonomia pedagógica e o enfraquecimento da dimensão pública da escola. A conclusão aponta que a educação, convertida em ativo financeiro, configura-se como um novo “ouro digital” no interior do capitalismo, em que a expansão de modalidades a distância e de plataformas amplia o acesso, mas coloca em risco a função emancipatória do ensino, exigindo regulação pública, valorização docente e defesa da escola como direito social inalienável.
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