“NOVAS FORMAS DE TRABALHAR, NOVOS MODOS DE ADOECER”: plataformização, intensificação do trabalho docente e adoecimento psíquico.
Palavras-chave:
Condições do trabalho docente;, Saúde mental; , Plataformas digitais;Resumo
O artigo tem como objetivo analisar criticamente a intensificação e a precarização do trabalho docente na educação pública brasileira, com foco nos impactos da plataformização sobre a saúde mental dos professores. Parte-se da constatação de que as reformas neoliberais, desde os anos 1990, introduziram modelos de gestão inspirados no setor privado, orientados pela lógica da eficiência, da competitividade e da responsabilização individual, que passaram a incidir de maneira direta sobre a prática pedagógica. A pandemia de Covid-19 não criou essas contradições, mas acelerou sua consolidação, ao impor o ensino remoto emergencial, ampliar o uso compulsório de plataformas digitais e multiplicar as exigências burocráticas, intensificando jornadas invisíveis e esvaziando a autonomia docente. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa e crítico-analítica, fundamentada no materialismo histórico-dialético e na análise documental de relatórios institucionais, dados oficiais, pesquisas sindicais e reportagens jornalísticas produzidas entre 2020 e 2024. Os resultados apontam que a plataformização, longe de representar apenas inovação tecnológica, converteu-se em instrumento de controle e vigilância, reforçando a intensificação do trabalho e agravando o adoecimento psíquico. Evidencia-se que o sofrimento docente não decorre de falhas individuais, mas expressa contradições estruturais do capitalismo neoliberal, que fragilizam os coletivos profissionais e transformam a docência em atividade cada vez mais expropriada de sua dimensão criadora. Conclui-se que a repolitização do sofrimento docente, articulada à defesa da escola pública e de condições dignas de trabalho, constitui caminho indispensável para enfrentar o adoecimento e ressignificar a docência como prática social emancipadora.
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